Por Thays Hungria - 16.8.06
Dia 20 de janeiro de 2006, uma noite chuvosa em Berlim. Pego o S-Bahn até a Ostbahnhof, mais alguns minutos de caminhada e estou no Maria. O Maria é um dos clubs mais bacanas da capital alemã, todo fim de semana tocam ali DJ's e bandas que ainda estão bem longe de integrar o circuito mainstream, mas que já possuem algum renome internacional. Naquela sexta-feira especificamente, quem se aventurasse na gelada chuva do inverno alemão seria recompensado com um dos melhores shows da sua vida, afinal, a atração da noite era o ADULT.
O ADULT. (com caixa alta e ponto final!) foi formado no final dos anos 90, em Detroit, pela fotógrafa de moda Nicola Kuperus e pelo músico Adam Lee Miller (Le Car, Artificial Material). Junto com artistas como o Dopplereffekt e seus próprios colegas do Ersatz Audio, eles foram responsáveis por manter viva nos anos 90 a tradição do electro oitentista.
A dupla lançou o primeiro single em 98, ainda sob o nome de Plasma Co. Nesse início de carreira, o som do ADULT. era um minimal electro muito próximo ao que o Adam Lee Miller já fazia em seus projetos anteriores, porém, com a contribuição da Nicola Kuperus, ele ganhou uma qualidade abstrata, uma certa densidade psicológica, que é especialmente óbvia nas letras (o ADULT. é famoso por suas letras psicologicamente perturbadas e perturbadoras), mas que transparece também na música, através de atmosferas capazes de transportar o ouvinte para um mundo muito asséptico, deserto e rondado por alguma ameaça misteriosa. Esses primeiros trabalhos do ADULT. dariam uma ótima trilha sonora para o desenho Aeon Flux ou para as fotografias da própria Nicola Kuperus.
ADULT., em 2001
O primeiro álbum, "Resuscitation", foi lançado em 2001. Dizer que esse disco traz uma releitura atualizada do electro e do synthpop dos anos 80 não deixaria de ser verdade, mas ele é muito mais que isso. "Resuscitation" mostra uma atenção aos detalhes que normalmente não se encontra em músicas desses estilos. Cada barulhinho parece meticulosamente colocado ali para surpreender e fisgar o ouvinte. Aos seqüenciadores, soma-se uma insistente drum machine e tudo é permeado por intensas camadas de sintetizadores. Impossível ficar imune a essa combinação! "Resuscitation" é tão impactante que, após ouvi-lo, um crítico concluiu que "esse álbum faz com que tudo o que eu tinha ouvido antes dele pareça agora tremendamente chato e sem sentido".
Pois todos que esperavam outro rompante electro foram pegos de surpresa pelo segundo álbum. Em "Anxiety Always", de 2003, o ADULT. flerta com o rock gótico e esbanja atitude punk. Os McIntoshes e sintetizadores ganharam a companhia de um baixo e até o vocal, que costumava ser totalmente frio e monotônico, passou a ter um monte de nuances, com a Nicola experimentando o que pode fazer com sua voz. Por ser tão inesperada, essa mudança provocou algumas torcidas de nariz, mas o fato é que o ADULT. soube muito bem como casar seu vigor electro com o rock do pós-punk.
"Gimmie Trouble", de 2005, não causou o mesmo estranhamento, pois, de certa forma, ele completa a transição iniciada em "Anxiety Always". Os ataques de sintetizadores e os seqüenciadores que despejam barulhinhos na hora certa ainda estão ali, como sempre. Mas agora, o baixo, que só aparecia em algumas faixas de "Anxiety Always", está em todas as músicas. Dessa vez ele até trouxe uma guitarra para acompanhá-lo e eles parecem ter saído diretamente do quarto de algum gótico que passa muito tempo ouvindo as bandas trevosas que emergiram da cena punk inglesa. "Gimmie Trouble" soa como algo que o Siouxsie and The Banshees poderia ter feito se existissem laptops em 1980.
ADULT., em 2005
Ao longo de quase uma década de carreira, o som do ADULT. mudou muito, mas algumas coisas continuaram as mesmas, como o fato de eles estarem sempre um passo a frente dos modismos. Outra coisa que não muda é a capacidade desse duo de fazer boas músicas, que bebem em fontes do passado, mas que não deixam de ser criativas e de ter um frescor. É por essas e outras que o ADULT. pode ser considerado, sem exagero, uma das bandas mais importantes da nossa geração.
E era com essa banda que eu ia me encontrar em Berlim. Depois de passar anos acompanhando avidamente cada musiquinha lançada pelo ADULT., eu finalmente ia ter a oportunidade de vê-los ao vivo. Cheguei cedo no Maria, para garantir um bom lugar, mas nem precisava porque o club estava longe de estar lotado. Assim que a dupla deu o ar de sua graça, umas duas centenas de sortudos vieram se posicionar em frente ao palco e eu tava ali na primeira fila, claro.
A Nicola pegou o microfone, se desculpou por umas dificuldades técnicas que tinham atrasado o show e a apresentação do ADULT. começou. Eles abriram com uma faixa do "Gimmie Trouble", mas o show não se focou no último álbum. Ele passeou por toda a discografia da banda, de "Nausea" a "In My Nerves", passando por "Glue Your Eyelids Together". Até faixas bem obscuras foram incluídas, como quando a Nicola disse "Essa é uma música antiga, talvez alguns de vocês a conheçam" e começou a cantar "Suck The Air". Só o que não tinha vez no set do ADULT. eram as faixas mais felizinhas, como "Nite Life". O duo parece inclinado a escolher para os shows justamente as músicas mais sombriamente inquietantes do seu repertório.
Encarnando toda essa tensão estava a Nicola Kuperus. Quando canta, ela parece uma pintura expressionista trazida à vida, com o rosto sempre contorcido e espelhando algum tipo de dor, angústia e amargura muito profundas. Observá-la é tão desconfortável quanto é irresistível.
Nicola Kuperus
Irresistível também era o efeito dos sintetizadores, seqüenciadores e linhas de baixo que jorravam das caixas de som. Eles pareciam envolver todo o lugar e transformá-lo num mundo que era só do ADULT. e ninguém queria sair desse mundo! Quando o show acabou, todos ficaram pedindo para que a banda voltasse e daí eles ressurgiram e tocaram mais duas músicas. Mas esse era aquele bis básico que todo mundo sabe que vai acontecer. Porém, clamores incessantes fizeram com que a Nicola e o Adam subissem de novo no palco e ela disse "Just because this is Berlin, we'll play one more song". Essa foi mesmo a última...
Depois do show, a Nicola e o Adam colocaram sua caixinha de papelão sobre uma mesa e ficaram vendendo merchandising da banda. Foi uma boa oportunidade para abastecer meu guarda-roupa com bottons e uma gravata exclusiva do ADULT. e também para bater um papinho com eles. Disse para a Nicola que tinha grandes expectativas para o show e que, assim, seria muito fácil ter me decepcionado, mas que, pelo contrário, eles tinham me surpreendido positivamente. Ela ficou feliz com isso e lamentou que os problemas técnicos tivessem impedido que eles tocassem algumas músicas. Respondi para ela que tinha adorado o set e que se ele tivesse sido diferente não teria sido melhor. Daí.. eu tive que pagar um micozinho básico e dizer "Would it be a pain if we had our picture taken together?", ao que ela simpaticamente respondeu "No! It wouldnt be a pain at all!". Ela até pediu para ver a foto e disse que ficou boa. Opinião profissional! Então, resolvi parar de alugar os dois e fui tomar umas cervejas com um amigo alemão.
Algumas fotos desse show em Berlim estão disponíveis
aqui.
O ADULT. funcionou muito bem ao vivo num lugar intimista, para poucas pessoas e num esquema bem despretensioso (nem roadie eles tinham). Vamos ver como eles se saem abrindo para o Franz Ferdinand!!
O ADULT. se apresenta pela primeira vez no Brasil no dia 16 de setembro, como uma das atrações do Motomix (o line-up completo do festival está no post aqui em baixo). Os ingressos já estão à venda e, aqui em Brasília, podem ser encontrados na Fnac. Imperdível!
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