Por Thays Hungria - 08.8.06
Em fins de 2002 as pessoas já estavam cansadas de ouvir pela bilionésima vez mais uma variação sem graça da mesma fórmula electroclash batida e, assim, muitos profetizavam que o então hype do momento estava com seus dias contados e que em breve ele retornaria ao limbo das modas ultrapassadas onde passaria as próximas duas décadas esperando por um novo revival. Essas previsões estavam, em parte, certas. Aquela formulazinha electroclash foi totalmente superada, mas o hype ao redor dela serviu para que muitas pessoas (re)descobrissem o electro, estilo popular nos anos 80, mas que ficou bem apagado durante os 90. Muito além da fórmula pronta desgastada, havia uma infinidade de possibilidades criativas, como a fusão com outros estilos, a incorporação de novas timbragens, o experimento com outras estruturas. Assim, chegamos em 2006 e o electro ainda está ecoando por aí, tanto nas pistas quanto em novos lançamentos. Comento aqui quatro álbuns recém-lançados que tem um pé no electro.
THE MAGICAKE
Botoxxx

Uma olhada por cima e você não dá nada no Magicake. Tudo neles cheira a clichê e deslumbre, desde o nome do álbum até o website, passando pela história sobre como a banda foi formada (dizem que se conheceram no banheiro de uma festa quando a menina estava vomitando e o que fez os meninos a convidarem para ser vocalista da banda foi o par de Manolo Blahniks de uma cor pêssego incrível que ela calçava). Já está mais que comprovado que o tamanho do deslumbre é inversamente proporcional à qualidade da música, portanto, a última coisa que se esperaria do Magicake é que eles fossem capazes de produzir alguma coisa decente. Porém, surpreendentemente, eles são!
Eles apareceram no ano passado com o imperdível single electro-acid house “I Was Dancing With Boy George”, que ganhou uma versão ainda mais ácida nas mãos do compatriota italiano Adriano Canzian. Agora eles lançam seu primeiro álbum. "Botoxxx" passeia por vários estilos, ali tem o ácido, tem minimal, rock, synthpop, techno, industrial... apesar de diversificado, o resultado acaba sendo bem coeso, pois o álbum tem um fio condutor, com a banda deixando bem claro, da primeira à última faixa, que tem suas raízes fincadas na ceninha electroclash. O disco pode até ser coeso, mas coerente ele não é. Ele tem bons momentos, mas tem também momentos verdadeiramente embaraçosos. Em músicas como “Black Leather”, o Magicake mostra que não está muito longe da bandinha medíocre e desprovida de criatividade que você imaginaria depois de dar aquela olhada por cima.Destaques: “Fried Chips”, “I Was Dancing With Boy George”.
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WARREN SUICIDE
The Hello

O Warren Suicide é um projeto multimídia. A banda surgiu quando os dois fundadores estavam no apartamento de um deles em Berlim e a menina estava desenhando. Ela acabou criando a figura expressionista de um menininho cabeçudo de olhar angustiado e que está sempre mostrando os dentes pontiagudos. Os amigos o batizaram de Warren Suicide e criaram uma banda para contar, em música, as histórias do menino bizarro.
E foi assim que, em 2003, o Warren se apresentou para o mundo. “Hello. My name is Warren Suicide. I wanna take you on a night ride”. O passeio com o Warren revela um mundo repleto de densas camadas de sintetizadores e baixos cobertos de efeitos, que criam uma atmosfera tão sinistra quanto o próprio menino.
Depois de vários EP’s e singles, “The Hello” é o primeiro álbum do Warren Suicide. Em parte, ele é um apanhado do que a banda tem feito nos últimos anos, já que só metade das músicas é inédita. Eles até tentaram dar um truque e fazer umas “versões 2006” para algumas músicas mais antigas, mas as novas versões só acrescentam detalhes desnecessários às originais. Na boa, melhor ter deixado como estavam. Quanto às inéditas, elas continuam sendo uma mistura de rock e electro com toques trevosos, mas são bem menos inspiradas que os trabalhos anteriores do Warren Suicide e devem decepcionar quem vem acompanhando a carreira da banda.Destaques: “Fulford”, além das já velhinas “Warren Suicide” e “Butcher Boy”.
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MAGAS
May I Meet My Accuser?

O Magas passou a década de 90 tocando em bandas de rock, mas, com a virada do milênio, ele decidiu que queria explorar o território eletrônico. Ele já estava trabalhando em algumas músicas, mas ainda não achava que elas fossem boas o suficiente para serem lançadas. Foi aí que, como proprietário de uma loja de discos e sabonetes em Chicago, ele entrou em contato com os lançamentos de um selo chamado Ersatz Audio e pensou “esses são os graves que eu sempre quis fazer!”. Então, ele mandou seu material para Detroit e foi prontamente aceito no seleto cast da gravadora.
Pelo Erstaz Audio, o Magas lançou um EP e um álbum, que foram co-produzidos pelo Adam Lee Miller, ninguém mais ninguém menos que um dos sócios do selo, ex-membro da histórica banda de minimal electro Le Car e uma das metades do duo ADULT. Sob a produção de Miller, as músicas do Magas ficaram com a cara do Ersatz Audio, mas sem perder sua identidade própria. E o Magas realmente gosta dos seus graves! Em “Friends Forever” (de 2003), ele seguiu o infalível lema “menos é mais” e cobriu batidas repetitivas com texturas eletrônicas, sempre muito graves e frenéticas, criando assim aquele que é sem dúvida um dos álbuns obrigatórios do electro desta década.
Em “May I Meet My Accuser?”, o Magas volta com seus indefectíveis graves, mas agora a veia roqueira que ele nunca tinha perdido está mais óbvia que nunca. Ele sempre usou máquinas para fazer os sons que normalmente seriam feitos com uma guitarra ou um baixo, mas no álbum novo é possível ouvir aqui e ali autênticos sons orgânicos saídos de guitarras, baterias e até um inusitado contra-baixo. Mas não se engane, esses sons orgânicos não são nem de longe predominantes, a sonoridade aqui ainda é totalmente sintética. “May I Meet My Accuser?” é um álbum de rock sintético! Destaques: "Easy To Please", "Transgressors".
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DAT POLITICS
Wow Twist

O trio francês Dat Politics sempre foi conhecido por fazer um eletrônico experimental e criativo, mas sem se esquecer de ser divertido. Essa mistura de experimentalismo com bom humor já fez com que o Dat Politics fosse rotulado como electro-idm. Seu último álbum, “Wow Twist”, é muito lúdico, parece que foi feito por robozinhos que estavam brincando de fazer música. Ele se difere dos trabalhos anteriores do Dat Politics porque, ao invés de ter faixas que mais parecem aglomerados de barulhinhos, “Wow Twist” tem músicas que até se aproximam das estruturas musicais convencionais! Por isso, esse é o álbum mais fácil da carreira do Dat Politics e com ele a banda deve conseguir atingir um público maior (falando nisso, é do "Wow Twist" que saíram aqueles barulhinhos que estão sendo usados na propaganda de America's Next Top Model no Canal Sony, aquela que fica zoando a Tyra Banks).Destaques: “Viper Eyes”, “Turn My Brain Off”, “What’s DAT?”, “Video Tape”, “Flea Wheel Fest”.
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