Por Thays Hungria - 04.10.06
Lamentável, Vitinho! Lamentável! Que triste! Ah se bem que alguém que saiu para uma balada qualquer e acabou a noite trocando figurinhas com o Alex Kapranos não tem muito direito de ficar reclamando da vida.
Eu vou falar um pouquinho sobre o domingo sim, mas antes só uns comentários sobre o Franz Ferdinand.
Momento legal número 3: "Outsiders". Ela ganhou uma versão um pouco mais rápida e groovy, o que por si só isso já seria bem bacana, mas a maneira como a música terminou é que foi peculiar. Algumas pessoas que estavam por ali no backstage, dentre elas o pessoal do Art Brut, vieram se juntar aos escoceses. Cada uma delas se posicionou em frente ao seu respectivo tambor e de repente tinha um monte de gente batucando em cima do palco. Pitoresco, para dizer o mínimo.
Porém, o mais marcante no show do Franz Ferdinand foi como o público... é, acho que aloprou é mesmo uma boa palavra. Sabe quando as pessoas estão tão afetadas que elas sentem uma vontade irresistível de ficar com os braços erguidos? Imagina milhares de pessoas nesse estado, pulando sem parar e cantando em coro cada verso de cada música, daí dá para ter uma noção do que foi o show do Franz Ferdinand. E eles ainda faziam questão de alimentar esse frenesi, dando às pessoas exatamente o que elas queriam: um hit atrás do outro. Foi realmente uma apresentação impressionante que totalmente desmentiu a fama que eles têm de serem fraquinhos e insossos ao vivo. Aliás, de onde diabos vem essa fama?! A banda que tocou em São Paulo é cheia de carisma e entusiasmo e sabe muito bem como tirar vantagem do fato de suas músicas serem super conhecidas.
Espaço das Américas, 17 de setembro, segundo dia do Motomix
O domingo foi bem diferente da noite de sábado. Aparentemente a maioria das pessoas tinha comprado o ingresso só para ver o Franz Ferdinand mesmo e durante toda a tarde e noite do domingo, o galpão na Barra Funda ficou bem tranqüilo, com apenas algumas centenas de pessoas sonolentas e com ressaca da noite anterior circulando pelo espaço relativamente vazio. Quem não foi ao segundo dia do Motomix perdeu a melhor atração do festival, mas pelo menos escapou de ter que ouvir a pior apresentação a passar pelo palco do evento.
Quem protagonizou o momento mais embaraçoso do Motomix 2006 foi o Peter Hook, também conhecido pelo público do festival como "o carinha do New Order". O DJ set dele foi uma sucessão medonha dos electro-rocks mais fuleiros que se pode conceber, bate-estaca a la Jovem Pan e muitos, muitos remixes que desavergonhadamente destruíam músicas do Joy Division e do New Order (teve até uma versão trance de "Blue Monday"). Foi meio deprimente ver alguém que fundou duas das mais importantes e influentes bandas da história se prestar ao papel ridículo de tiozinho que acha que uma boa maneira de arrumar uns trocados é tocar o que ele acredita ser a "música da qual os jovens gostam hoje em dia".
O fim do set do Peter Hook trouxe o esperado alívio para uma sessão de tortura auditiva e serviu também como aviso de que era hora de correr para a grade, afinal, a próxima banda a se apresentar era o ADULT. Rapidamente se formou em frente ao palco um pequeno e ansioso fã-clube da dupla de Detroit e quando o Adam Lee Miller e a Nicola Kuperus apareceram para montar o equipamento, eles já foram recepcionados por gritinhos de "uuuuuhhhh".
"Hello! We're ADULT. and we're from Detroit", assim começou o show de "uneasy listening", que é como a própria banda gosta de definir sua música. Foi um início um pouco estranho. O som estava muito agudo e a Nicola soava como o vocal de um disco com o pitch acelerado. Esse problema chegou a ser corrigido lá pela quarta música, mas havia um defeito impossível de se consertar: o Espaço das Américas é muito inapropriado para um show do ADULT. Naquele galpão enorme, o som sai das caixas e se perde, fica reverberando por aí, tornando bem mais difícil para a banda envolver o público com sua atmosfera sombriamente atraente.
Difícil, porém não impossível. Usando apenas dois sintetizadores, um laptop e um baixo, eles habilmente produzem um electro com energia punk e espírito gótico que exerce um fascínio irresistível mesmo sobre aqueles que nem conhecem a banda. Além disso, eles têm como vocalista a Nicola Kuperus, uma figura introspectiva, mas muito magnética. Enquanto o Adam ficava no canto tocando seu baixo, a Nicola se encarregava da interação com a platéia. Em "Glue Your Eyelids Together", ela desceu do palco e foi até a grande cantar com seu fã-clube.
Pouco depois, em "Human Wreck", a Nicola desceu do palco de novo, mas dessa vez, para a surpresa de todos, ela pulou a grade e começou a andar no meio do público. Foi engraçado olhar para a cara das pessoas nessa hora, elas tinham um olhar incrédulo, mas sorriam de orelha a orelha e estavam adorando a oportunidade de ver a vocalista bem de perto e de cantar "Human Wreck" no microfone com ela. Depois desse passeio pela pista, qualquer estranhamento inicial provocado pela inadequação do espaço físico havia se dissipado e a Nicola já tinha cativado cada pessoa ali.
Um outro gesto da Nicola a ajudou a conquistar a simpatia da platéia, mas esse foi involuntário. Ela estava cantando e caminhando de costas, de repente ela tropeça no retorno e se espatifa no chão. É claro que ela deu um jeito de incorporar o tombo na performance e continuou cantando deitada. Quando a música terminou, ela admitiu envergonhadamente que "é sempre muito embaraçoso tropeçar no retorno e cair, mas caso vocês estejam se perguntando se eu estou bem, sim, eu estou". Ela aproveitou a deixa para repetir aquela conversa mole de sempre de que "seu país é muito bonito, vocês são muito legais e a gente está muito feliz por estar tocando aqui". Então, ela terminou o discurso perguntando "Are you having fun??" e deve ter ficado feliz quando ouviu um estrondoso "Yeeeeaaaaaah" como resposta.
Ela também devia estar se divertindo porque quando o show acabou, ela já estava caminhando em direção ao backstage, quando, como quem não quer ir embora, deu meia-volta e desceu do palco mais uma vez. Então ela caminhou até uma menina que era o membro mais empolgado do fã-clube da grade, tirou do bolso uns bottons e entregou para a menina distribuir para o pessoal. Antes de subir no palco de novo, ela fez questão de percorrer toda a grade, meio que se despedindo do público. Várias pessoas aproveitaram para pedir autógrafos, tirar fotos, elogiar o show ou só tocar na Nicola Kuperus.

Fã troca beijinhos com a Nicola no fim do show do ADULT.
Dá para fazer um balanço geral do Motomix 2006, citando o Adam Lee Miller. Perguntado em uma entrevista sobre se o ADULT. tem letras que falam sobre o consumismo, ele respondeu "Yeah. In the song 'Pressure Suit' we are talking about that. It's quite funny to have a crowd of people chanting 'I want to spend my money on entertainment'. Yeah, you just did." Verdade, Adam, verdade. E foram sessenta reais bem gastos! Mas só por causa do ADULT., do Franz Ferdinand e do Art Brut, o resto dava para dispensar.
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